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quarta-feira, setembro 10, 2008

Os Limianos na Grande Guerra: uma leitura.

No decurso de uma entrevista, Georges Duby (1919-1996), eminente historiador francês, responde à interpelação feita por Raymond Bellour sobre a ficção e as ligações entre história e romance: Há, sem dúvida, uma enorme diferença entre a história e o romance, na medida em que a ficção histórica está forçosamente ligada a algo que foi verdadeiramente vivido, mas, no fundo, a forma de abordagem não é muito diferente. O historiador conta uma história, uma história que ele forja recorrendo a um certo número de informações concretas.
Vem esta citação a propósito da leitura que fizemos do recente trabalho publicado por Luís Dantas, Os Limianos na Grande Guerra. Trata-se de uma edição de autor, que, primando por uma narrativa quase literária, nos remete para a história do primeiro conflito mundial, a guerra que todas as grandes nações europeias consideravam, à partida, que seria curta. A realidade, cruelmente, impôs uma duração longa; houve que refazer planos e o conflito ganhou contornos inauditos. A guerra de movimentos rapidamente deu lugar às trincheiras. Produziram-se mobilizações (de homens, recursos e economias) sem precedentes, apareceram novas armas e técnicas, entre as quais, a chamada “guerra psicológica” (entre outras iniciativas, a aviação americana lançou panfletos onde se questionava: “Ainda tens esperança numa vitória final? Estás disposto a sacrificar a tua vida por uma causa sem esperança?”).
Luís Dantas traça um quadro deste momento da História, entrecruzando, as diferentes dimensões – o contexto internacional, a realidade portuguesa (que à época implica o espaço colonial) e o pulsar da guerra vivida pelos combatentes, particularmente os limianos. Como notou Marc Ferro, “a guerra vivida pelos combatentes tem a sua história que não é a grande História”. Luís Dantas consegue dar nota dessa “pequena história”, marcada pela esperança de um regresso breve, pelo quotidiano dramático nas trincheiras e a crescente consciência solidária entre combatentes. De igual modo, retrata o soldado comum. Não se limita a evidenciar o papel das chefias ou dos heróis de guerra. Tanto fala de Norton de Matos e da sua acção na preparação das tropas do CEP, como dos soldados (até hoje) anónimos. Os postais que publica são paradigmáticos: as dificuldades de escrita de Gaspar António de Lima (pág. 136) denunciam um país dominado por baixos índices de alfabetização. Abro parêntesis, para notar que alguns se deixam retratar junto de cenários que poderiam servir para o dia de comunhão ou para os noivos; fecho. Luis Dantas não redige uma mera apologia, mas não deixa de vincar o heroísmo destes homens. É nomeando e retratando os soldados limianos que os (re)coloca na memória colectiva. A partir deste trabalho, deixa de haver “antigos combatentes limianos”, colectivo anónimo puramente comemorativo.
Ao ler as páginas de Os Limianos na Grande Guerra, perpassa a imagem de um país imerso em grandes dificuldades. Norton de Matos teve-as na preparação das tropas e na obtenção de armamento; os soldados na frente de batalha sentiam a falta de reservas e a inadaptação a um novo estilo de guerra (veja-se a reacção à comida inglesa, ao corned beef e à marmelada de casca de laranja azeda); a fome alastra no país. A República treme. O “Milagre de Tancos” deu lugar ao “Fado do Cavanço” e este culminou com uma Europa exaurida e com a insubordinação das tropas na linha da frente. A Batalha de La Lys representou o fim da guerra para os Portugueses.
A narrativa de Luís Dantas segue uma linha cronológica clássica, remetendo, ainda que implicitamente, para a teoria historiográfica tradicional que justifica a nossa intervenção na Primeira Guerra Mundial pela necessidade de proteger o espaço colonial. Num segundo momento, dá nota das dificuldades da Primeira República e, dessa forma, aproxima-se da linha de investigação que vê na legitimação do poder republicano a razão para entrar na guerra. Sem preocupações de exaustividade, lavra um texto de leitura agradável. Também aqui parece cumprir as palavras do historiador francês, na entrevista supracitada: “o historiador sempre escreveu por prazer e para dar prazer aos outros”. Sem cair no narrativismo, nem numa história recitativa, Luís Dantas, quer neste livro quer na sua restante e extensa produção, suscita-nos a reflexão (eternamente emergente e não resolvida) sobre a escrita histórica e a escrita literária. Paul Ricouer admite que não existe ficção pura, nem História tão rigorosa que se abstenha de todo o procedimento romanesco. Talvez Luís Dantas seja a prova disso.
Como historiador, Luís Dantas cumpre o aparato necessário à crítica e validação do conhecimento. Há referência em nota à bibliografia, menciona os arquivos consultados, refere todos aqueles que contribuíram para o resultado final. O livro destaca-se ainda por coligir um conjunto de imagens relevantes. Algumas, verdadeiros ícones (como as de Joshua Benoliel e Arnaldo Garcez), merecem do autor uma análise aguda (veja-se a leitura feita à fotografia de Garcez, na pág. 18 e 19), revelando a potencialidade da iconografia como documento histórico (algumas fotografias mereciam um tamanho maior!). O leitor percebe que o material reunido foi criticamente analisado e que houve uma utilização cuidada das fontes literárias (a tentação habitual é cair no impressionismo).
Cabe a Luis Dantas o mérito de abrir uma porta; outros investigadores colocarão sobre o mesmo objecto outras questões, “na plena consciência de que jamais chegaremos a uma verdade objectiva” (Georges Duby).

A entrevista que citamos pode ser lida em George DUBY, Philippe ARIÈS, Jacques Le GOFF e E. Leroy LA DURIE - História e Nova História. Lisboa: Editorial Teorema, 1989. Sobre a Primeira Guerra Mundial veja-se Marc FERRO - La Grande Guerre. 1914-1918. Paris: Éditions Gallimard, 1990. Georges Duby fala em primeira pessoa, entre outros assuntos, das opções que tomou quanto à escrita em A História Continua, editado pela ASA, em 1992. É particularmente interessante a sua justificação quanto ao trabalho Guilherme, o Marechal.

segunda-feira, maio 23, 2011

Luís Dantas (1946-2011)

Eu vou, meu nome ficará/Me lembrem os amigos meus (Asik Veysel)

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Alfredo Cândido, caricaturista das "verdes margens do Lima"

[Caricatura de Alfredo Cândido, O Vira, n.º 4, 22 de Março de 1906, retirado de Blog da Rua Nove]

Por estes dias, enquanto realizava uma pesquisa, cruzei-me com um conjunto de referências a páginas e blogs onde se menciona Alfredo Cândido, caricaturista nascido em Arcozelo. Sendo este um espaço de partilha, deixo as ligações para uma nota biográfica redigida por Luís Dantas, um conjunto de posts do Blog da Rua Nove, que incluem a reprodução de várias caricaturas, e o resultado de uma exposição intitulada Recordando Portugal em antigos bilhetes postais (a partir da colecção de Klaus WernerGruner), que dedicou o painel 8 à caricatura política de Alfredo Cândido.

terça-feira, agosto 21, 2007

Caricaturistas de Ponte de Lima

O investigador e historiador de banda desenhada Leonardo de Sá teve a amabilidade de comentar o nosso post sobre Sanhudo, Mâncio e Laerte, remetendo-nos para o "Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal", que escreveu com António Dias de Deus (Edições Época de Ouro, Câmara Municipal da Amadora, 1999) e lembrando-nos um outro nome importante nesta arte, nascido em Ponte de Lima, Alfredo Cândido (1879-1960). Sobre este último veja-se o trabalho de Luís Dantas. A imagem que acompanha este apontamento é uma caricatura de Alfredo Cândido, publicada no O Vira (n.º 4, 22 de Março de 1906), e fomos encontrá-la no "Blog da Rua Nove".

segunda-feira, junho 01, 2009

Integrando o programa da Feira do Livro de Ponte de Lima, certame a decorrer até 7 de Junho, na Expolima, no próximo dia 6 de Junho, pelas 17 horas, será apresentado o livro "Figuras Populares de Ponte de Lima", de Luís Dantas. Os trabalhos realizados pelo autor, quer nesta temática quer noutras, auguram um livro marcante. Entretanto, hoje foi dado a conhecer, em sessão própria, o livro Viajar com... António Feijó, de José Cândido Martins. O programa da Feira inclui outras apresentações, como pode ver aqui.

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