sábado, abril 11, 2009

Doce Páscoa

Há gestos, imagens e objectos - portadores de memória - que nos levam ao comércio tradicional.

quinta-feira, abril 09, 2009

Afinidades Secretas de António Feijó

Contemplemos o tronco envelhecido. A custo
Nasce aquele renovo, e a todos os momentos
Alimenta-se e cresce e chega a ser arbusto,
Com os ramos cobrindo os galhos corpulentos
Do carcomido tronco...

A senectude austera,
Com grinaldas de musgo e com abraços de hera,
Trabalha e sofre e luta arrebatando a seiva,
Com a raiz cravada à produtiva leiva,
Para dar vida à infância!

Olhando o grupo eu cuido
Que prende a Natureza o mesmo estranho fluido;
Que no tronco e no arbusto e no reptil e na ave
Existe alguma coisa humamente suave,
Como no homem existe um pouco desse instinto
Da pantera ferida e do leão faminto...
António Feijó

quarta-feira, abril 01, 2009

Parece-lhe familiar?...

"Em Portugal ha, neste momento, três raças distintas: a dos que procuram trabalhar e produzir o mais que podem, a dos que ambicionam fazer o menos que podem e a dos que procuram impedir, com a mais obstinada das teimosias, todo o trabalho útil e todo o esforço profícuo e criador." (Cardeal Saraiva, 23.09.1920).

"Parece que uma onda de loucura invadiu as classes dirigentes, onda que vem chocar-se com uma outra de revolta que se vem avolumando pela anarquisação da sociedade, onde a fome principia a fazer sentir os seus horrores (...)" (Cardeal Saraiva, 2.09.1920).

segunda-feira, março 09, 2009

Sobre uma pedra tumular

Na apresentação do livro Figuras Limianas foi projectada a imagem de um túmulo, julgo que no Oriente, onde para além do nome do sepultado surge a menção à sua naturalidade – Ponte de Lima. Não me interessa, neste momento, nomear a figura nem precisar o local do sepulcro. Interessa-me o gesto, a condição.
Deixar-se assim epigrafar é uma forma de revelar a condição de migrante. Como dizia Miguel Torga o emigrante é um contrabandista da linha equatorial da vida. Balançando entre o torrão natal e o torrão adoptado, passa a ser um ser híbrido, recebendo da vida, no dizer do escritor, a marca indelével da permanente inquietação. Tenha ou não regressado à sua terra natal, aquele homem manifestou a divisão entre duas pátrias, dualidade que tanto é um imperativo moral como um estigma de condenação. Essa é a riqueza de uma obra como as Figuras Limianas: dar a conhecer experiências de vida, descobrir o Outro, ainda que no Passado. Nessa pesquisa há um encontro connosco, com a nossa identidade. É óbvio que naquelas páginas não está representado o turbilhão de experiências dos homens desta região. É certo que ao lado destes “factos históricos” é justo colocar, como diz José Mattoso, o “suspiro de amor” ou o “nascimento de uma criança”, desde que não se perca o sentido da globalidade. Mas também se justifica dizer que aquelas figuras não estão ali para serem julgadas – a História não serve para julgar os Homens, mas para enriquecer o nosso interior pela compreensão e conhecimento daquilo que fomos e somos. Devemos, pelo contrário, reconhecer-lhes os limites, as qualidades e os defeitos. Mesmo que nos soe a estranho devemos estar abertos ao que nos diz. Recebemos lições da história quando reconhecemos a alteridade. Isso não quer dizer que devemos ser complacentes com tudo. Não podemos é atribuir aos nossos valores uma objectividade que legitimaria colocarmo-nos num patamar de superioridade. A emissão de juízos morais sobre as figuras do Passado é uma fragilidade. Nem sempre na História encontramos o Humanidade com que sonhamos; nem sempre a nossa abertura ao Outro se revela uma “história de amor”.
Voltando à lápide. Muito mais agarrado ao tempo e ao espaço do que o homem da actualidade, aquele indivíduo procurar diluir as fronteiras numa inscrição. De alguma forma diz-nos que sendo naquela terra, há um outro lugar onde se gostaria de inscrever. O muito próximo não é sinónimo de muito importante. Na verdade, não sei se são mais importantes os arbustos humanos plantados no chão onde nasceram, voltando a usar as palavras de Torga, ou aqueles que vivem a experiência do estilhaço. Não sei qual das duas é mais reveladora de amor à mãe geográfica (outra vez, Torga); sei, pois assim me mostram os homens do passado e os do presente, que é uma situação dolorosa, a de viver dividido entre duas pátrias.
Há um limiano contemporâneo, que na sua escrita deixou transparecer bem a experiência destes homens que partem e regressam (sob as mais diversas formas), Amândio Sousa Dantas: no regresso não regressamos / mudou o tempo e nós mudamos / e não se volta ao que deixamos (…).
[citamos, Miguel Torga - Ensaios e Discursos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, 169-180; Amândio Sousa Dantas - Emigrar na Primavera. Edição de autor, 1991, 46]

sábado, março 07, 2009

[reprodução do artigo publicado no jornal "A Aurora do Lima", de 18.08.1972, assinado por A.[ugusto] C.[astro] S[ousa]]

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O Lima de Camilo Castelo Branco

(...)
Vai o leitor pasmar-se daquelas bem-aventuradas margens do Lima. Entra comigo em Viana, na louçã namorada do oceano, naquela esquiva formosa que vacila entre deixar-se amar das ondas, que lhe beijam os pés, ou dos arvoredos que lhe enramam a fronte. Agora, vamos neste barquinho rio acima até Ponte de Lima. Não se me fique arrobado neste ondear de esmeralda que a viração balança, que receio me deixe ir sozinho em procura do brasileiro. Aquilo são bosques, que escondem moitas arrelvadas, e meandros de fontes, e amores de aves, e amores de damas castelãs, que por ali se escondem mais conhecidas das estrelas que nossas, e mais conhecidas ainda dos faunos ilustrados do sítio que das estrelas.
Aqui estamos na velha Ponte. Iremos por terra a Valença que é um ir sempre ao debaixo de abóbadas de verdura.

Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Um catálogo para um espaço em MUT(E)ação

O ano que findou foi fértil no campo editorial, em Ponte de Lima. Constatamos uma regularidade de apresentações inédita e vislumbramos trabalhos com qualidade. Relativamente sombreado pela exposição mediática atribuída à inauguração do Museu dos Terceiros, esta inteiramente justa, o Catálogo do Museu dos Terceiros tomou a estante dos apreciadores da(s) arte(s), dos interessados na museologia e dos visitantes amantes da cultura.
Um catálogo é, por definição, um rol ordenado de elementos classificados. No caso, é um registo do acervo do património das igrejas de Santo António dos Frades e Ordem Terceira, hoje designado por Museu de Arte Sacra dos Terceiros (MUTE), onde se inclui a estatuária, a azulejaria, a pintura, o mobiliário, os altares e retábulos, as alfaias litúrgicas e outros objectos.
O trabalho cumpre com qualidade a função descritiva dos objectos acrescentando, em diversas circunstâncias, uma preocupação em determinar o responsável pela encomenda, o contexto da sua decisão e uma explicação da simbologia. Utilizando uma linguagem ajustada à tipologia descrita, o autor do texto, José Velho Dantas, revela o cuidado de nos fornecer elementos interpretativos, alicerçando o seu discurso em fontes documentais e bibliográficas.
Catalogar é um exercício fulcral para a preservação e divulgação do património. Tornou-se banal afirmar que só amamos o que conhecemos. Por detrás do chavão está uma verdade insofismável. Leio hoje, num artigo de Matilde Sousa Franco, que o lema de António Sérgio era a frase da mística Santa Catarina de Sena: O intelecto nutre o afecto. Quem mais conhece mais ama; e mais amando mais gosta. A publicação deste catálogo serve o conhecimento e faz-nos olhar para o MUTE de outra forma. Durante muito tempo aquele local foi albergue de interessantes exposições; nesse aspecto, o Museu não rompe com uma tradição recente de apropriação do espaço. Contudo, quantas vezes nos escapou a riqueza patrimonial que ficava na sombra dos painéis e dos objectos temporariamente expostos? O catálogo tem o mérito de dar a conhecer esse património, agora recuperado e conservado.
Um catálogo é um instrumento de acção. Cremos que, a partir dele, será necessário construir outros meios de divulgação, ajustados aos perfis dos visitantes. Quando visitamos o MUTE, ainda decorria a exposição temporária “Santeiros de Ponte de Lima”, percebemos que as bases para esse trabalho estão criadas (recordo uma simpática mascote). É preciso ensinar a ver (não só os públicos jovens!), criando guias que nos “obriguem” a explorar o MUTE para além de uma abordagem mais “panorâmica”.

[Catálogo do Museu dos Terceiros. Coordenação: Carlos Brochado de Almeida. Textos de José Velho Dantas. Fotografia de Amândio de Sousa Vieira. Edição: Município de Ponte de Lima, 2008.]

domingo, janeiro 25, 2009

Ponte de Lima nos "Oscares do Turismo português"

A Feira do Cavalo de Ponte de Lima mereceu uma menção honrosa, na categoria de "Animação & Eventos", na 4ª edição dos Prémios Turismo de Portugal 2008. A entrega dos referidos prémios teve lugar, na semana finda, na abertura oficial da Bolsa de Turismo de Portugal (BTL). Segundo a reportagem do jornal Público (Fugas, 24.01.2009), houve 132 candidatos, sendo 67 do sector público e 65 da área da iniciativa privada. O prémio procura destacar os projectos "que mais contribuíram para uma maior notoriedade de Portugal como destino turístico de excelência". A lista completa pode ser conhecida na página do Ministério da Economia e da Inovação/Turismo de Portugal.
A menção honrosa que distinguiu a Feira do Cavalo é o reconhecimento de um trabalho que, desde os seus primeiros momentos de vida, se revelou de qualidade. Aproveitando um equipamento urbano versátil, com uma arquitectura que soube conciliar a realidade envolvente e a intervenção humana, a Feira apresentou um programa diversificado e com qualidade, capaz de satisfazer o público mais exigente e o simples amante da vida animal. Acima de tudo, (re)coloca o homem em contacto com a Natureza; (re)lembra a rica simbiose entre o animal e o humano.
É interessante notar que, nesta categoria, a par deste evento mereceu a mesma classificação o "veterano" Festival Internacional do Porto - Fantasporto e que o vencedor tenha sido o Red Bull Air Race World Series (realizado no Porto/Gaia). Trata-se, quer num caso quer noutro, de eventos com uma expressão mediática difícil de ultrapassar. Contudo, mais do que "enchentes" fugazes e "primeiras páginas", interessa a Ponte de Lima o desenvolvimento de projectos regulares, sustentáveis e que se ajustem à realidade natural, antropológica e histórica local.
O prémio servirá, indubitavelmente, de alento à organização da III Feira do Cavalo, agendada para os dias 25 a 28 de Junho de 2009 (cujo cartaz reproduzimos).

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Alfredo Cândido, caricaturista das "verdes margens do Lima"

[Caricatura de Alfredo Cândido, O Vira, n.º 4, 22 de Março de 1906, retirado de Blog da Rua Nove]

Por estes dias, enquanto realizava uma pesquisa, cruzei-me com um conjunto de referências a páginas e blogs onde se menciona Alfredo Cândido, caricaturista nascido em Arcozelo. Sendo este um espaço de partilha, deixo as ligações para uma nota biográfica redigida por Luís Dantas, um conjunto de posts do Blog da Rua Nove, que incluem a reprodução de várias caricaturas, e o resultado de uma exposição intitulada Recordando Portugal em antigos bilhetes postais (a partir da colecção de Klaus WernerGruner), que dedicou o painel 8 à caricatura política de Alfredo Cândido.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Dario Niccodemi no Teatro Diogo Bernardes

Em Maio de 1923, o jornal "Rio Lima" noticiava a apresentação no Teatro Diogo Bernardes da peça, em três actos, "A Migalha", da autoria de Dario Niccodemi (1874-1934). Dario Niccodemi nasceu na cidade de Livorno e iniciou a sua actividade teatral na Argentina, para onde emigrou, com a sua família. Regressou à Itália em 1915, fundando, seis anos depois, uma companhia de teatro, a primeira a representar Seis personagens à procura de um autor (1921), de Luigi Pirandello (1867-1936).
[Cf. Rio Lima, 27 de Maio de 1923, nº 21, Ano 1. Na imagem: Dario Niccodemi]

domingo, dezembro 28, 2008

... assim atamos e desatamos os dias

A folha estremece (uma vida inteira)
assim atamos e desatamos os dias.
[Amândio Sousa Dantas, excerto do poema "Fragmentos", do seu livro "No ombro o orvalho", Lisboa: Edições Ceres, 2006, p. 23; fotografia: jcml]

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Natal

[...]
O Cristo é sempre novo, e na fraqueza deste menino
há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Nasce a cada Dezembro e nasce de mil jeitos.
Temos de pesquisá-lo até na gruta de nossos defeitos.
[...]

Excerto do poema "Vi nascer um Deus" de Carlos Drummond de Andrade .

terça-feira, dezembro 23, 2008

Natal

[...]
descobriram subitamente
Jesus.
[...]
... na manjedoura?
no presépio?
no chão, diante do pórtico arruinado, como em Siena o pintou Francesco Giorgio.

[excerto do poema "Vi nascer um Deus" de Carlos Drummond de Andrade][na imagem: Natividade de Francesco di Giorgio Martini]

terça-feira, dezembro 16, 2008

Ponte de Lima na History of the Peninsular War, de Robert Southey

Mais um contributo para os interessados em aprofundar o tema que temos vindo a tratar nos últimos dias: trata-se de mais uma publicação onde se refere Ponte de Lima a propósito da resistência à presença do exército sob comando francês, desta feita do poeta britânico Robert Southey (1774-1843). Deixamos a ligação ao texto integral e reproduzimos a página com a menção à vila de Ponte de Lima.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Ponte de Lima na History of the War in the Peninsula and in the South of France, de William Francis Patrick Napier

Na sequência do post anterior, hoje deixamos a ligação para a versão disponível no Google Books do livro de William Francis Napier (1785-1860), que relata os acontecimentos militares da Guerra Peninsular. William Napier, general britânico, serviu na referida Guerra e a sua História da Guerra na Península e no Sul da França, obra composta por seis volumes, publicados entre 1828 e 1840, continua a ser uma importante fonte de informação para o conhecimento do conflito. No excerto, que sublinhamos, é possível ler, numa tradução livre, que as tropas marcharam em direcção a Ponte de Lima, tendo os Portugueses resistido vigorosamente à sua passagem.

[Na imagem: Busto de Sir William Francis Patrick Napier, por George Gammon Adams (1821-1898), 1855.]
Após a leitura da mensagem "A pensar em 2009", Carlos Gomes alertou-nos para uma outra efeméride que terá lugar no próximo ano: "passam precisamente 150 anos sobre a data de nascimento do poeta António Feijó", diz na sua mensagem. É justa a recordação desta figura da literatura e da diplomacia portuguesa, nascida em Ponte de Lima em 1859. Mais uma vez, interessa a comemoração como forma de tornar presente a acção, o pensamento e a escrita de António Feijó. Deixem que acentue o poeta: realize-se uma jornada de leitura de poesias, ditas por declamadores profissionais e anónimos, por crianças e jovens, com a presença de literatos e amantes da poesia. Não são necessários muitos recursos, basta encontrar os espaços apropriados e juntar as pessoas que nutrem prazer na leitura de poesia.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

A pensar em 2009

A sugestão vem inscrita num artigo, publicado na edição do presente ano da revista “O Anunciador das Feiras Novas”, da autoria de Porfírio Pereira da Silva (edição nº 25, 2ª série, pág. 65 a 67): recordar a resistência de Ponte de Lima, no contexto da Guerra Peninsular. Tratar-se-ia de lembrar a forte resistência das populações do Minho e Trás-os-Montes, e particularmente de Ponte de Lima, durante a tentativa de subjugação encetada pelos generais franceses sob comando de Soult. António Pedro Vicente, numa publicação recente, escreve que “tornou-se notável a [resistência] que teve lugar na vila de Ponte de Lima” (Guerra Peninsular, 1801-1814. Matosinhos: Quidnovi, 2007, pág. 67).
Perfilhamos que o segundo centenário da defesa de Ponte de Lima, que ocorrerá no ano que se avizinha, deva ser objecto de uma acção comemorativa. O acto comemorativo pode ter os mais diversos objectivos, configurações e concretizações. O autor citado alvitra levantar um padrão ou colocar uma lápide. Sendo uma proposta válida, prefiro pensar noutras formas de comemorar. Por exemplo, envolver, num conjunto de eventos formativos e culturais, as crianças e jovens de Ponte de Lima, estimulando o gosto pela história local, a reflexão sobre a Humanidade, a Guerra e as relações culturais (temas de extrema actualidade). Não se pretendendo apenas o culto dos heróis ou uma “festa à resistência”, mas uma reflexão sobre o mundo actual partindo da experiência passada. Sem maniqueísmos, mas procurando compreender as diferentes faces deste facto no contexto da realidade política, cultural e militar da época. Outra hipótese, que não anula a anterior: reunir, numa jornada, alguns estudiosos que se têm debruçado sobre as Invasões Francesas e promover a divulgação do conhecimento histórico produzido sobre este período. Outra ainda: recriar a resistência, aproveitando para, através do evento, recuperar a “memória histórica” e reescreve-la na “memória colectiva”.
Aqui ficam algumas sugestões que à semelhança do autor que nos inspirou, e fazendo uso da sua expressão, “vendemos ao desbarato”. Para terminar, um documento:

segunda-feira, novembro 17, 2008

Café, fumo e areal



Em 1913, o jornal Cardeal Saraiva publicava uma notícia insurgindo-se contra a torrefação de café em lugares públicos, na vila de Ponte de Lima. Era, segundo o articulista, abuso de alguns comerciantes que realizavam esse trabalho "á porta do seu estabelecimento, resultando isso grande incomodo aos moradores dos predios visinhos, porque num dado momento são esses predios invadidos por grossas nuvens de fumo". A solução para o problema é curiosa: faça-se essa tarefa no areal!(Cardeal Saraiva, 21.12.1913)

quarta-feira, outubro 22, 2008




Pede-se a quem, por engano, levou do Café Camões, uma cadeira com assento de palhinha, a finesa de a entregar no mesmo Café.
[Comércio do Lima, 8.10.1916]

segunda-feira, outubro 13, 2008


António Matos Reis, natural de Fornelos (Ponte de Lima), foi distinguido com o Prémio A. de Almeida Fernandes, instituído pela Fundação Mariana Seixas (Viseu), pelo seu trabalho "História dos Municípios (1050-1383)", editado pela Livros Horizonte. De acordo com a agência Lusa, o júri considerou o trabalho "notável pela clareza e segurança de análise, com um universo documental vasto e tratamento metodologicamente irrepreensível", tendo o autor prestado "um contributo muito significativo no estudo da organização municipal portuguesa". A obra é o resultado do seu doutoramento e vem na sequência de um trabalho rigoroso e consistente sobre os municípios portugueses. Na mesma editora é possível encontrar publicada a sua tese de mestrado: "Origens dos Municípios Portugueses" (1990, 2002). De acordo com a fonte citada, a cerimónia de entrega do prémio está marcada para 29 de Novembro, em Óbidos.

Tinhamos escrito, há um ano, aquando da primeira edição que a Festa das Colheitas/ArtColheitas, organizada na Gemieira, tinha "potencialidade para se tornar num evento marcante na agenda cultural do concelho". O programa do presente ano evidenciou esse crescimento augurado. Destacamos alguns aspectos positivos: a manutenção de um espaço expositivo decorado com elementos da terra, associados às colheitas, recorrendo a estruturas simples que acentuam a ruralidade; a presença, plenamente integrada no âmbito do evento, da "Agricultura Biológica", reveladora da vitalidade de um mundo rural que não se crer cristalizado nem (simplesmente) folclorizado; as preocupações de organização do trânsito e limpeza (casas de banho portáteis, contentores de lixo...). Algumas notas para o futuro, para que não se passem por "crises de crescimento": ordenar o espaço de forma a que os diferentes espaços expositivos estejam bem demarcadas; evitar transformar o evento numa "feira" idêntica a muitas outras (é necessário evidenciar a individualidade do evento); escolher os "vendedores" privilegiando aqueles que estão ligados à actividade agrícola; evitar o "império da cerveja". Para os que não tiveram oportunidade de visitar o ArtColheitas, notemos que é uma organização da Associação do Povo de Santiago de Gemieira, uma interessante iniciativa associativa local, assente num conjunto de parcerias que pode conhecer melhor no sítio http://www.artcolheitas.com/, de excelente qualidade gráfica.

Estão abertas, até ao dia 30 de Outubro as incrições, para a edição de 2009 do Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima, cujo tema é "Artes no Jardim". Se quiser saber mais sobre o concurso deste evento que anualmente cria doze jardins efémeros, aceda ao sítio http://www.festivaldejardins.cm-pontedelima.pt/.

domingo, setembro 28, 2008

"Samiguel" de Cabaços

O "Samiguel" de Cabaços funde, de forma harmoniosa, diversas dimensões do acto festivo. Se, por um lado, dá continuidade a um dos cultos cristãos mais antigos e populares (o culto ao arcanjo S. Miguel), por outro lado remete-nos para a transição do século XIX para o século XX, através dos trajes que a maior parte dos participantes enverga. Festa com um fundo sagrado, claramente cristã, o "Samiguel" de Cabaços actualiza, todos os anos, o mote dos cestos (a sua exposição decorre até ao próximo dia 5 de Outubro). Este ano a temática centra-se na figura de S. Paulo e no "Ano Paulino". Sem música gravada, as amplificações sonoras servem o leilão. As concertinas têm lugar garantido. Não há "cachorros", "farturas" e patrocínio de cervejeiras. À venda encontram-se (apenas) os produtos da terra. O adro da Igreja é engalanado com "os frutos novos". Há alegria, mas contida. Não há excessos. A população parece empenhada num esforço comum. Este ano divisamos mais visitantes e o trânsito mais complicado. O desafio para os organizadores será manter a "originalidade"; manter, como afirmam no prospecto do anúncio, "uma festa diferente das outras!".

domingo, setembro 21, 2008

Retrato das Feiras Novas 2008 (I)

A noite de todas as danças


A noite de todos os cantos

Sem comentários...

Alex, comentando o nosso post de 8 de Setembro, chama a atenção para o facto de "na primeira foto o sinal de trânsito apenas proíbe[ir] acampamentos e caravanas, não proíbe auto-caravanas, que tem um estatuto completamente diferente". Agradeço o seu comentário. Na verdade, para além do respeito ou desrespeito das questões formais na realização da sinaléctica, o rodapé da placa é claro pois tem inscrito "autocaravanas" (veja-se a foto). Note-se que não tenho qualquer objecção a este tipo de actividade, desde que cumpridora dos regulamentos e do seu estatuto. Pretendia, isso sim, alertar para a poluição visual criada pelo estacionamento desregrado no areal. A paisagem natural, o Rio, o visitante e o habitante da vila merecem este cuidado.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Feiras Novas 1908-2008

[Ponte de Lima, 16 e 17 de Setembro de 2008]

"O entusiasmo na vila com os preparativos para as atraentes festas á Virgem das Dores, manifesta-se desde ha dias, o que traz para os seus promotores tambem grande regosijo por verem que tudo corre ás mil maravilhas. Oxalá o tempo não apareça por ahi a fazer alguma pirraça..." [Echo do Lima, 17 de Setembro de 1908]

quarta-feira, setembro 10, 2008

Os Limianos na Grande Guerra: uma leitura.

No decurso de uma entrevista, Georges Duby (1919-1996), eminente historiador francês, responde à interpelação feita por Raymond Bellour sobre a ficção e as ligações entre história e romance: Há, sem dúvida, uma enorme diferença entre a história e o romance, na medida em que a ficção histórica está forçosamente ligada a algo que foi verdadeiramente vivido, mas, no fundo, a forma de abordagem não é muito diferente. O historiador conta uma história, uma história que ele forja recorrendo a um certo número de informações concretas.
Vem esta citação a propósito da leitura que fizemos do recente trabalho publicado por Luís Dantas, Os Limianos na Grande Guerra. Trata-se de uma edição de autor, que, primando por uma narrativa quase literária, nos remete para a história do primeiro conflito mundial, a guerra que todas as grandes nações europeias consideravam, à partida, que seria curta. A realidade, cruelmente, impôs uma duração longa; houve que refazer planos e o conflito ganhou contornos inauditos. A guerra de movimentos rapidamente deu lugar às trincheiras. Produziram-se mobilizações (de homens, recursos e economias) sem precedentes, apareceram novas armas e técnicas, entre as quais, a chamada “guerra psicológica” (entre outras iniciativas, a aviação americana lançou panfletos onde se questionava: “Ainda tens esperança numa vitória final? Estás disposto a sacrificar a tua vida por uma causa sem esperança?”).
Luís Dantas traça um quadro deste momento da História, entrecruzando, as diferentes dimensões – o contexto internacional, a realidade portuguesa (que à época implica o espaço colonial) e o pulsar da guerra vivida pelos combatentes, particularmente os limianos. Como notou Marc Ferro, “a guerra vivida pelos combatentes tem a sua história que não é a grande História”. Luís Dantas consegue dar nota dessa “pequena história”, marcada pela esperança de um regresso breve, pelo quotidiano dramático nas trincheiras e a crescente consciência solidária entre combatentes. De igual modo, retrata o soldado comum. Não se limita a evidenciar o papel das chefias ou dos heróis de guerra. Tanto fala de Norton de Matos e da sua acção na preparação das tropas do CEP, como dos soldados (até hoje) anónimos. Os postais que publica são paradigmáticos: as dificuldades de escrita de Gaspar António de Lima (pág. 136) denunciam um país dominado por baixos índices de alfabetização. Abro parêntesis, para notar que alguns se deixam retratar junto de cenários que poderiam servir para o dia de comunhão ou para os noivos; fecho. Luis Dantas não redige uma mera apologia, mas não deixa de vincar o heroísmo destes homens. É nomeando e retratando os soldados limianos que os (re)coloca na memória colectiva. A partir deste trabalho, deixa de haver “antigos combatentes limianos”, colectivo anónimo puramente comemorativo.
Ao ler as páginas de Os Limianos na Grande Guerra, perpassa a imagem de um país imerso em grandes dificuldades. Norton de Matos teve-as na preparação das tropas e na obtenção de armamento; os soldados na frente de batalha sentiam a falta de reservas e a inadaptação a um novo estilo de guerra (veja-se a reacção à comida inglesa, ao corned beef e à marmelada de casca de laranja azeda); a fome alastra no país. A República treme. O “Milagre de Tancos” deu lugar ao “Fado do Cavanço” e este culminou com uma Europa exaurida e com a insubordinação das tropas na linha da frente. A Batalha de La Lys representou o fim da guerra para os Portugueses.
A narrativa de Luís Dantas segue uma linha cronológica clássica, remetendo, ainda que implicitamente, para a teoria historiográfica tradicional que justifica a nossa intervenção na Primeira Guerra Mundial pela necessidade de proteger o espaço colonial. Num segundo momento, dá nota das dificuldades da Primeira República e, dessa forma, aproxima-se da linha de investigação que vê na legitimação do poder republicano a razão para entrar na guerra. Sem preocupações de exaustividade, lavra um texto de leitura agradável. Também aqui parece cumprir as palavras do historiador francês, na entrevista supracitada: “o historiador sempre escreveu por prazer e para dar prazer aos outros”. Sem cair no narrativismo, nem numa história recitativa, Luís Dantas, quer neste livro quer na sua restante e extensa produção, suscita-nos a reflexão (eternamente emergente e não resolvida) sobre a escrita histórica e a escrita literária. Paul Ricouer admite que não existe ficção pura, nem História tão rigorosa que se abstenha de todo o procedimento romanesco. Talvez Luís Dantas seja a prova disso.
Como historiador, Luís Dantas cumpre o aparato necessário à crítica e validação do conhecimento. Há referência em nota à bibliografia, menciona os arquivos consultados, refere todos aqueles que contribuíram para o resultado final. O livro destaca-se ainda por coligir um conjunto de imagens relevantes. Algumas, verdadeiros ícones (como as de Joshua Benoliel e Arnaldo Garcez), merecem do autor uma análise aguda (veja-se a leitura feita à fotografia de Garcez, na pág. 18 e 19), revelando a potencialidade da iconografia como documento histórico (algumas fotografias mereciam um tamanho maior!). O leitor percebe que o material reunido foi criticamente analisado e que houve uma utilização cuidada das fontes literárias (a tentação habitual é cair no impressionismo).
Cabe a Luis Dantas o mérito de abrir uma porta; outros investigadores colocarão sobre o mesmo objecto outras questões, “na plena consciência de que jamais chegaremos a uma verdade objectiva” (Georges Duby).

A entrevista que citamos pode ser lida em George DUBY, Philippe ARIÈS, Jacques Le GOFF e E. Leroy LA DURIE - História e Nova História. Lisboa: Editorial Teorema, 1989. Sobre a Primeira Guerra Mundial veja-se Marc FERRO - La Grande Guerre. 1914-1918. Paris: Éditions Gallimard, 1990. Georges Duby fala em primeira pessoa, entre outros assuntos, das opções que tomou quanto à escrita em A História Continua, editado pela ASA, em 1992. É particularmente interessante a sua justificação quanto ao trabalho Guilherme, o Marechal.

segunda-feira, setembro 08, 2008

segunda-feira, setembro 01, 2008

O Anunciador das Feiras Novas em tons de prata

[Capa da vigésima quinta edição, da segunda série, de "O Anunciador das Feiras Novas"]

segunda-feira, agosto 25, 2008

sábado, agosto 02, 2008

O domingo passado foi dia cheio, para as festas e arraiaes campestres. Festejou-se a Senhora da Boa-Morte, na freguezia de Correlhã, o Senhor da Cana Verde em Moreira, e houve a festa do Senhor, na de Sta. Comba. A concorrencia dos romeiros foi diminuta em todas ellas, attendendo ao calor do dia, e a não poderem estar em todas ao mesmo tempo. No domingo proximo festeja-se o Senhor da Saude, na freguezia de Sá, havendo na vespera, illuminação, muzica e fogo de artificio. É de presumir que a concorrencia seja maior, pela devoção que todos teem com imagem tão milagrosa. [O Lethes, 1865]

Por estes dias, entramos em contacto com a equipa responsável pelo jardim "Le Feu et 300 Arbres" (O Fogo e 300 Árvores), concebido por Sylvian Morin e Aurélien Zoia, arquitectos paisagistas, para o 4º Festival Internacional de Jardins. Fazer do fogo o tema central de um jardim tinha-nos suscitado alguma perplexidade.

Sylvian Morin justificou a escolha: uma viagem a Portugal deixou uma imagem indelével - a de florestas a arder, fumo nas montanhas e o característico odor a madeira queimada.

J'ai voyagé au Portugal il y a 2 ans, pendant l'été, et j'ai été marqué par l'importance des incendies et des feux de forêts dans votre pays. La fumée était présente dans les montagnes, visuellement, autant que par l'odeur. Aussi, nous avons souhaité consacrer un jardin spécial sur les arbres brûlés.

Perguntamos: se não é uma apologia do fogo, o jardim pode ser uma referência à Fénix que renasce das chamas?
Il s'agit pour nous de faire entrer un morceau de paysage caractéristique à l'intérieur d'un jardin. L'idée était tant de montrer l'espoir de faire renaître un paysage qui se transforme, que, dans la deuxième partie du jardin, suggérer que le feu est toujours présent, que le paysage des forêt est fragile, et que votre pays n'est pas à l'abri des incendies. Les arbres brûlés gardent la mémoire du feu sur leur tronc. Il était question pour nous, en tant que paysagistes, de rappeler aux gens la présence des incendies, à travers l'image d'un jardin.

Para os dois membros do Atelier ALTERN, trata-se de integrar um pedaço de paisagem característica no interior do jardim. De uma paisagem que renasce. Se o jardim revela a fragilidade da floresta, mostra, igualmente, a capacidade regeneradora das árvores. Como afirma Sylvian Morin, as árvores queimadas guardam a memória do fogo no seu tronco.

O jardim tem a virtude de questionar o visitante. Para além da riqueza cenográfica (que talvez tenha estado na origem da escolha deste trabalho para capa do catálogo do Festival), o jardim suscita a pergunta. Se nos parece próximo - por remeter para uma das imagens e um dos flagelos nacionais - é (aparentemente) inusitado - por tomar como tema o fogo, elemento destruidor. Este é um trabalho original, onde o lúdico (que impera noutros jardins) deu lugar à pergunta.

Aurélien ZOIA et Sylvian MORIN são dois jovens arquitectos paisagistas instalados na França e criadores do ATELIER ALTERN. O seu trabalho pode ser visto em http://www.atelieraltern.com/.

Mais um excerto de BIBLIOGRAPHIA HISTORICA PORTUGUEZA ou catalogo methodico dos auctores portuguezes, e de alguns estrangeiros domiciliarios em Portugal, que trataram da historia politica ... [obras até 1840], de Figanière (Jorge Cesar), Lisboa, 1850.

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