quarta-feira, outubro 18, 2006

O cortejo histórico das Feiras Novas

Encerramos hoje a votação relativa à questão "O Cortejo Histórico das Feiras Novas foi...". Dos 15 participantes, 60% qualificaram o cortejo de fraco, 27% votaram no item satisfatório e 13% afirmaram que não viram. Estas sondagens são reconhecidamente falíveis e não têm (nem poderiam ter) propósitos de análise científica, contudo, são uma nota não negligenciável de participação e de opinião. Corro o risco de escrever algo, expondo algumas ideias.
O cortejo histórico falhou naquilo que é o seu âmago, o guião. Se o propósito era realizar um cortejo centrado no acto comemorativo dos 180 anos das Feiras Novas, esse facto, para além da presença simbólica da Associação dos Bombeiros Voluntários, não teve qualquer visibilidade. Deixo uma questão: não seria digno de circular nas ruas da vila os nomes dos cidadãos ("anónimos", como se costuma dizer) que fizeram as festas no passado, integrando comissões de festas (marcadas pelo amadorismo e "amor à terra")? Ou estaremos sempre agarrados aos "ilustres", às elites e esquecemos a realidade popular que define, em grande medida, a festa.
Não deixarei ainda de notar que não se compreende a exclusão de determinadas festas das freguesias do concelho; qual foi o critério para se evidenciar determinadas festas?
Sendo um cortejo histórico numa festa assente na realização de feira, não seria interessante orientar a apresentação dos quadros de acordo com as feiras do concelho? Depois do livro do Amândio de Sousa Vieira, sabemos que há muita história que não passa apenas pelos momentos fundadores. Um cortejo que fizesse a história da feira e da festa, integrando-a na história de vila e do concelho, ganharia outro dinamismo e os assistentes reconheceriam a sua memória, uma memória colectiva que tem lugar quer para os acontecimentos excepcionais quer para as rotinas e para a vida quotidiana.
Já agora, não seria interessante repensar os carros alegóricos? A sua composição remete para uma "história de conto de fadas" ou para a "carnavalização" da história.
Voltaremos ao assunto.
A partir de hoje pode participar numa nova votação, acedendo através do botão que se encontra no fundo desta página.

terça-feira, outubro 17, 2006

Balanço das Feiras Novas_1908

Não deixa de ser interessante o exercício de confrontar diferentes visões sobre um mesmo acontecimento. Em 1994, escrevemos um artigo no "O Anunciador das Feiras Novas" (ano XI), intitulado "As Feiras Novas no princípio do século" [leia-se séc. XX], no qual traçavamos uma imagem dos festejos assente, em grande medida, nas notícas publicadas na imprensa local. No ano que nos serve de referência, 1908, a imprensa notou o entusiasmo com os preparativos, a chegada de forasteiros e o empenho mobilizador da comissão encarregue da organização da festa, que apelava aos habitantes da vila para "endandeirarem suas casas" (Cf. Eco do Lima, 17.09.1908). Para o leitor fica a sensação de uma preparação dos actos festivos bem sucedida, o que na época, por vezes, se tornava difícil. A leitura do excerto da notícia de "O Commercio do Lima", de 26 de Setembro de 1908, publicado no excelente trabalho de recolha documental e fotografia de Amândio de Sousa Vieira, Feiras Novas 1826-2006, adensa a sensação dos festejos terem correspondido às expectativas criadas. Dizia-se que "o programa foi cumprido fielmente, apenas com a falta, cujo motivo se ignora, do grupo de bailarinas espanholas" (Cf. Feiras Novas 1826-2006, pág. 41). Porém, descentralizando o nosso olhar e consultando a imprensa de outras povoações, percebemos que a leitura é completamente diferente. Denotando outras formas de ver, talvez marcadas por rivalidades locais, o jornal O Independente, considerava que as "festas das Dores" tinham sido "desanimadissimas". Para o articulista, "aproveitavel de todo o programa, só achamos as illuminações e o fogo, de resto um pepineira. As touradas foram o que se chama um verdadeiro fiasco, que certamente não deixaria de envergonhar a commissão". Facto que não estranha, uma vez que "é sempre assim, quando se fazem touradas em Ponte de Lima é só com gado manso". A conclusão, dura, contrasta claramente com a impressão que nos criava a imprensa limiana: "As festas n'aquella villa desmerecendo cada vez mais, não estarão longe de terminarem de uma vez para sempre, o que é mais razoavel do que andar a enganar o forasteiro com espaventosos reclames".
Se é certo que, quanto ao fim da festa, a história foi mostrando que o articulista estava enganado, não deixa de ser relevante notar que a construção do conhecimento histórico implica a crítica e o cruzamento das fontes, portadores de leituras mais ricas, capazes de dar nota da complexidade da realidade. Aquilo a que vamos chamando "limianismo" não se deve transformar num olhar centrado no umbigo; ganhamos todos quando somos capazes de o assumir como uma forma de ler a realidade local imbricada numa teia social e cultural complexa. Há, portanto, um longo trabalho a realizar na historiografia local que ultrapasse as leituras assentes na cronologia, no simples somatório de factos e na concentração nas "grandes individualidades". Comungo, portanto, uma das observações de Carlos Gomes a um dos meus posts (ver post de 25.08.06): é bom ver a entrada de novas abordagens na história local limiana.

sexta-feira, outubro 13, 2006

A partir de hoje tem disponível um novo meio de contacto com o autor deste blogue: anunciadordasfeirasnovas@clix.pt. Endereço aberto a sugestões, críticas, opiniões e envio de propostas de publicação.
Divulgue o blogue e o endereço de correio electrónico a um amigo!

quinta-feira, outubro 12, 2006

O Teatro D. Fernando, uma morte anunciada (II)

A vereação camarária de Ponte de Lima havia, em 1869, anos antes dos incêndios trágicos do Teatro da Trindade e do Teatro do Baquet, chamado a atenção da Administração do Concelho para a situação de segurança precária do Teatro D. Fernando. De acordo com um ofício conservado no Arquivo Municipal de Ponte de Lima, “achando-se colocado nos baixos d’esta caza [Câmara Municipal] um Theatro, no qual se dão espectáculos públicos em que se queima fogo de artificio, e nos ensaios se fuma sem a menor cautela, estando este edifício em eminente risco, e tanto assim que nas representações, que uma companhia há pouco estacionada n’esta villa, foi mister collocar a bomba e empregados d’ella junto do Theatro por se receiar algum incêndio", a vereação, por unanimidade, deliberou representar junto do Administrador do Concelho para que não permitisse "representações enquanto se não por fiança, ou de caução sufficiente no valor d'esta caza da Câmara, e seu archivo e documentos d’ella, caza de tribunal judicial, caza da administração, da Fazenda, e do telegrapho". A segurança do edifício, legítima preocupação dos membros da Câmara Municipal, pode, contudo, "encapotar" uma outra razão para o "cerco" ao Teatro D. Fernando: a necessidade de controlar expressões teatrais consideradas censuráveis pelas elites. Num período de afirmação do ideário burguês e da ideia de Estado-nação, a censura teatral encontrava suporte legal e no "bom gosto". A alegação de questões de segurança serviu, muitas vezes, veladamente, para censurar uma forma de estar no teatro mais "popular".
[com excertos do ofício ao Administrador do Concelho, 27 de Julho de 1869]

terça-feira, outubro 10, 2006

Festival de Jardins_2006






















A flor tem a linguagem de que a sua semente não fala.
A raiz não parece dar aquele fruto.
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem.
Retirada a linguagem
a semente é igual a flor
a flor igual a fruto
fruto igual a semente
destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.

José de Almada Negreiros (1893-1970), Poemas.


Tem, apenas até ao dia 30 de Outubro, a possibilidade de se confrontar com os jardins do Festival deste ano. Estaremos perante projectos de arte com jardins ou projectos de jardins com arte ou, ainda, com espaços hibrídos característicos dos tempos que correm, onde as clássicas fronteiras entre arte e jardim se diluem?

[foto: jcml, aspecto do jardim "A Música da Horta", Festival de Jardins, 2006]

sexta-feira, outubro 06, 2006

Arquitectura em Ponte de Lima (III)

Para os interessados em arquitectura e na sequência do nosso post intitulado "Arquitectura em Ponte de Lima (II)", publicado em 15.09.2006, deixamos mais uma nota bibliográfica sobre a obra de Eduardo Souto de Moura (n. 1952). Trata-se da revista temática ELcroquis (nº 124, 2005) dedicada àquele arquitecto, onde é mencionado o trabalho desenvolvido na Quinta de Anquião, duas moradias situadas num terreno com declive acentuado.

[reprodução da capa da revista El Croquis, nº 124, 2005; para conhecer esta revista de arquitectura deve aceder a www.elcroquis.es]

quinta-feira, outubro 05, 2006

O Teatro D. Fernando, uma morte anunciada.

Em Março de 1888, deflagrou um incêndio no Teatro Baquet, no Porto, que vitimou dezenas de pessoas, produzindo na opinião pública um sentimento de tragédia. Não era a primeira vez que ocorria um incêndio numa sala de teatro naquela cidade. Alguns anos antes, em Julho de 1875, o Teatro da Trindade ficou reduzido a cinzas. Estes acontecimentos alertaram a opinião pública e as autoridades, quer do poder central quer dos municípios, para os problemas de segurança nestes espaços de cultura e divertimento. Ponte de Lima não ficou alheia a esta preocupação. Em 1879, a Câmara Municipal de Ponte de Lima, tendo "sido annunciado no dia de hontem no Commercio do Lima bailes públicos no Teatro de Dom Fernando" e "estando o mesmo fichado á annos pelo motivo de que pode darse um caso de insendio", solicitava ao Administrador do Concelho que tomasse as medidas necessárias para "não consentir taes bailes no mesmo Theatro” (Arquivo Municipal de Ponte de Lima, Livro de actas camarárias, 6 de Fevereiro de 1879). Na sequência da tragédia no Teatro Baquet, foi publicada uma portaria que estabelecia a realização de inspecções e a concretização de obras por parte dos proprietários dos edifícios onde se realizavam espectáculos cénicos. Impressionado pelos acontecimentos, o editorialista do jornal "A Voz do Lima" publicava, no dia 28 de Março, um artigo onde se defendia que o Teatro D. Fernando constituía um perigo. Dizia-se que "o nosso theatro, pequeno e acanhado, com uma sahida apenas, com uns corredores por onde só cabe uma pessoa, n'um caso de sinistro, será o causal de tudo lá ficar". Numa edição posterior (11 de Abril), o jornal reconhecia que não tinha clamado "no dezerto" a sua "voz quando fallamos em que se devia ser condemnado, expropriado até, o nosso pequeno Theatro D. Fernando". Para o autor daquelas linhas, não bastaria encerrar o espaço - "outros dias, outras politicas, empenhos valiosos e lá teremos o mesmo perigo" - era necessário que Ponte de Lima se empenhasse na "completa extincção do theatro" e na construção de um outro "em melhores e mais seguras condições". Perfilhava-se um caminho para o nascimento do novo teatro em Ponte de Lima - o Teatro Diogo Bernardes.

[fontes: Arquivo Municipal de Ponte de Lima e jornal "A Voz do Lima"]
[foto: Teatro Baquet, gravura, Nogueira da Silva, 1863 in Arquivo Pitoresco, v. VI, Lisboa 1863, p. 257]

sexta-feira, setembro 29, 2006

A partir de hoje este blogue passa a ter uma nova funcionalidade: votações periódicas sobre temas da actualidade limiana. De igual modo, manteremos a possibilidade de avaliar o conteúdo geral deste espaço. Participe! No fim desta página encontra um botão com uma caixa de voto, carregue e responda às questões levantadas.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Ponte de Lima e o poeta Charles Tomlinson

Um poema de Charles Tomlinson (n. 1927) escrito em Ponte de Lima, na Quinta do Baganheiro:

ALTO MINHO

Não, não é esse lago entre rochedos...
Pessoa
Abelhas movem-se entre o rosmaninho e a rosa.
As laranjas estão à espera da apanha.
Os cunhais de granito perto da eira,
A inscrição da marca rúnica do pedreiro
Pedem clarificação pelo sol oculto.
(Mais tarde, este despontará ao longo do rio
Para mostrar até onde as águas da enchente chegaram
E mancharam com lama as folhas mais baixas das árvores
Da cor da pedra, uma franja pétrea reflectindo-se
Na calma logo abaixo delas...)
Aqui o pão e a realidade estão reconciliados
Pela excelência do milho, dos pedaços barrados.
Estamos a comer mel numa casa de granito.
[extraído de Monteiro, Manuel Hermínio (dir) - Rosa do Mundo. 2001 poemas para o futuro. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pág. 1667 e 1668]
[para saber mais sobre Charles Tomlinson:

quarta-feira, setembro 27, 2006

Obras de Luis de Sousa Dantas na Biblioteca do Congresso Americano

Sabia que as obras de Luis de Sousa Dantas (n. 1946), Bolero (1974) e Pedras Verdes (1970), fazem parte do acervo da Biblioteca do Congresso Americano?
Segundo o responsável pela "The Library of Congress", a biblioteca "it is the largest library in the world", com "mais de 29 milhões de livros e outros materiais impressos, 2.7 milhões de gravações, 12 milhões de fotografias, 4.8 milhões de mapas e 58 milhões de manuscritos". Um dos objectivos da Biblioteca é preservar, e legar às gerações vindouras, uma colecção do conhecimento e da criatividade universal.
No sítio da Biblioteca do Congresso (http://www.loc.gov/index.html) é possível proceder a pesquisas segundo diversos itens. Experimentem uma pesquisa básica usando a palavra "Ponte de Lima" e, para além das referidas obras, encontrarão referência a trabalhos de Matos Reis, Amélia Aguiar Andrade, Humberto Baquero Moreno, Laurinda Fernandes Carvalho e ao Almanaque de Ponte de Lima.

População em Ponte de Lima

Estamos a (re)construir a evolução da população de Ponte de Lima. Regularmente, daremos notícia do processo.


segunda-feira, setembro 25, 2006

Feiras Novas_1865


O jornal O Lethes noticiava os actos festivos de Setembro, em Ponte de Lima, da seguinte forma:

"No dia 20, teve logar na egreja matriz a solemne funcção da muito milagrosa imagem de Nossa Senhora das Dôres. A missa cantada foi acompanhada a instrumental. Houve exposição e sermão, em que o revº Fr. Manoel do Amor Divino teve mais uma occasião de patentear os seus excellentes dotes oratorios. A noute antecedente ao dia da festa foi abrilhantada por um bello fogo do ar e preso, ouvindo-se nos intervallos a excellente banda de musica do snr. Manoel Dantas e Sousa".

[foto: jcml, imagem de Nossa Senhora das Dores, Igreja Matriz de Ponte de Lima]
[texto: O Lethes, 22 de Setembro de 1865]

domingo, setembro 24, 2006

Ponte de Lima_1867

Número de fogos: 512
População: 2008 habitantes.


quarta-feira, setembro 20, 2006

Uma "farpa" de Ramalho Ortigão


"Em Ponte de Lima, a ponte que deu o nome à vila é um dois mais antigos monumentos do seu género em Portugal. Assenta em vinte e quatro arcos, dos quais dezassete em ogiva.
Foi reconstruída primeiramente por D. Pedro I, talvez sobre a ponte romana da época da via militar de Braga e Astorga, e depois por D. Manuel. Era entestada por duas belas torres, uma do lado de Arcozelo, outra do lado da vila, a que dava entrada por uma porta ogival. As guardas da ponte, assim como as duas torres, eram guarnecidas de ameias.
Com essa forma se conservou este curioso monumento até 1834. Depois, com o regime liberal, veio uma vereação que mandou arrasar as duas torres; e outra vereação, não querendo ficar atrás da primeira, mandou serrar as ameias que coroavam as guardas! O cinto de muralhas, com as suas cinco portas, as suas torres e as suas barbacãs, com que D. Pedro I fortificou a vila reedificada no século XIV, não caiu também inteiramente de per si, foram ainda vereações municipais que sucessivamente se encarregaram de o fazer desaparecer.
O poder central, em sua alta e suprema indiferença pelos mais estúpidos atentados de que são objecto os monumentos mais vuneráveis da arte e da história nacional, aprovou a uma por uma todas as marradas de preto-capoeira com que à municipalidade de Ponte de Lima aprouve derribar e destruir os mais belos vestígios arquitectónicos da gloriosa história da antiga vila e o próprio sentido heráldico das suas armas, nas quais em escudo de prata figura uma ponte entre duas torres."
Ramalho Ortigão (1836-1915)
O excerto é mais um elemento para a reflexão em torno das alterações arquitectónicas e urbanísticas que se vão processando em Ponte de Lima, à semelhança de outras localidades. Uma das intenções dos homens do século XIX era promover a higienização dos espaços urbanos, cuidando da salubridade, eliminando focos de imundície e espaços lúgrubes, promovendo o "arejamento" dos arruamentos, estabelecendo planos de alinhamento, corrigindo o traçado das ruas... Aparentemente tudo boas razões para a destruição de parcelas das muralhas medievais! Porém, Ramalho Ortigão olha para os factos de outro modo - a vaga modernizadora não pode recusar a conservação do património local. O debate é actual, embora se formule noutros termos e as razões do "bom gosto" tenham outras configurações. Não deixa de ser interessante notar a comunhão entre o poder local e o poder central na "cegueira" denunciada por Ortigão.
Como é óbvio regressaremos ao tema.

[Excerto de As Farpas. Lisboa: Clássica Editora, 1986. Tomo I, pág. 44-45]
[Foto de Ramalho Ortigão: Photographia Contemporanea In O Contemporaneo, Lisboa 1881, nº 100; foto: jcml]

terça-feira, setembro 19, 2006

Feiras Novas 2006: duas notas
















Nota positiva: o novo ordenamento dos comerciantes na Avenida dos Plátanos. Ganharam a segurança, o comprador (e provavelmente, o vendedor), o visitante que procura usufruir a paisagem ou simplesmente deambular sem o aperto asfixiante de outros anos.

Nota negativa: a Comissão de Festas e a Câmara Municipal devem cuidar da limpeza regular das áreas mais concorridas, distribuir mais wc's (sinalizando-os), colocar mais recipientes de depósito de lixo, apelar ao visitante para o respeito pelos espaços ajardinados, utilizar a amplificação sonora para fazer chegar a mensagem da educação ambiental (que deve ser, também, preocupação no período festivo).

Voltaremos ao assunto.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Arquitectura em Ponte de Lima (II)



A revista Arquitectura Ibérica dedica o seu 13º número ao Comércio/Lazer, reservando algumas das suas páginas para o trabalho criado, em Ponte de Lima, pelo arquitecto José Manuel Castro Carvalho Araújo (n. 1961) - o mercado/feira do gado (projecto de 2001/2005). Este será um dos palcos das Feiras Novas, uma vez que para aquele local foram remetidos o concurso pecuário (Sábado, 8.30 horas), a corrida de garranos (Sábado, 15 horas) e, revelando a polivalência do espaço, parte da animação nocturna. O mercado/feira do gado é um projecto que se evidencia pela simplicidade, pela sobriedade e pelo encaixe paisagístico, com interessantes prolongamentos da realidade envolvente. A recente atribuição da denominação de Expolima patenteia uma vontade de tornar o espaço aberto a outras iniciativas para além da comercial. A configuração do complexo arquitectónico e o seu contexto potenciam a polivalência de usos.

[foto: reprodução da capa da revista Arquitectura Ibérica, nº13, Comércio/Lazer, editada em 03/2006, pela Caleidoscópio]

quinta-feira, setembro 14, 2006

Nas vésperas das Feiras Novas (1901)



O jornal "A Semana", há precisamente 105 anos, registava, tendo como horizonte as Feiras Novas, que "Ponte de Lima transforma-se, transfigura-se! Da sua normal pacatez, surge como por encanto, o phantastico tumultuar d'uma população galvanizada pela febre do praser." Para o articulista, "o entusiasmo era geral", acrescentando: "Podera... não que as festas do equinocio são a despedida do verão e passadas ellas, adeus noites calmosas da avenida, deliciosas noites de luar; calar-se-hão os rouxinoes, da outra banda e começarão as longas noites de tedio, na sancta paz do borralho...". A avenida, nesse ano, seria iluminada com "grandes globos de vidro para illuminação a luz acetylene, produzindo o effeito d'arcos voltaicos". O cenário estava preparado, a ansiedade agudizava-se... Hoje, como ontem, apetece dizer: "toca a gosar n'estes dias".

[texto construído com base na notícia publicada no jornal "A Semana", de 14 de Setembro de 1901 (nº 478, ano X)]

[foto: jcml, aspecto do areal em Maio de 2006, nas comemorações dos 180 anos das Feiras Novas]

sábado, setembro 09, 2006

Arquitectura em Ponte de Lima (I)

Nascido em 1952, Eduardo Souto de Moura é um dos arquitectos mais conhecidos e notáveis do país. Trabalhou com Álvaro Siza Vieira (n.1933) e na sua obra é evidente a influência de Mies van der Rohe (1886-1969). Ponte de Lima abriga uma das suas obras de referência: 2 casas situadas na Quinta de Anquião. Trata-se de um projecto de 2001, executado entre 2001 e 2002. O livro "Eduardo Souto de Moura. Habitar", editado pela Caleidoscópio (2004), utiliza na capa uma fotografia, de Luis Ferreira Alves, com um pormenor das casas. No interior, podemos encontrar fotografias, alçados, cortes e esquissos do autor. O grupo de habitações, quase escultórico, encontra-se implantado num terreno muito inclinado, na proximidade do Campo de Golfe de Ponte de Lima.



[fotografia: montagem da reprodução da capa, foto do autor e do conjunto de casas]
[para ler: José Manuel das Neves - Eduardo Souto de Moura. Habitar. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2004]

quarta-feira, setembro 06, 2006



Ainda com cheiro a tinta, chega-nos a capa da vigésima terceira edição de "O Anunciador das Feiras Novas". Remetendo-nos para a comemoração dos 180 anos das Feiras Novas, a composição da capa estabelece uma ligação entre o passado e o presente, dando conta de continuidades - o aglomerado de homens e mulheres, as decorações... - e mudanças - os gigantones recentemente criados, que se tornaram uma das marcas dos festejos. A sobriedade de toda a capa encontra contraponto no colorido do Largo. E se à imagem fosse possível juntar o som, a caixa aberta deixaria transpor a algazarra dos forasteiros, o estrondear dos bombos ou os acordes da Banda. Contudo, no passado como no presente, o elemento central das festas são as pessoas esfervilhando - comprando, dançando, cantando, bebendo e comendo - sob o olhar atento do granito das antigas muralhas e dos arcos da ponte, que abraçam um extenso areal acariciado pelo remansoso rio Lima.

domingo, setembro 03, 2006

Revisitar os espaços d' "O Anunciador das Feiras Novas" de 1948 (I)

A edição de 1948, segundo número e último da primeira série de publicação, incluía uma página, que reproduzimos, sobre a Igreja do Senhor da Saúde, na freguesia de Sá.
Revisitamos aquele local de culto e verificamos que as tradições religiosas se mantêm vivas... Não era dia de festa, mas um homem, com um lenço regional na cintura, cumpria uma promessa. No recinto do Santuário ainda é possível encontrar mortalhas, velas e círios para o cumprimento daquele tipo de prática religiosa.
Junto ao altar com a imagem do Senhor da Sáude encontram-se pagelas onde se anuncia a romaria. À semelhança da edição de 1948, as pagelas publicitam a romaria "que se realiza todos os anos e nos primeiros sábado e domingo do mês de Agosto". Dizia "O Anunciador" que era a "mais afamada e concorrida romaria do concelho de Ponte de Lima, aonde dos visinhos concelhos de Viana do Castelo, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e Paredes de Coura, acorrem milhares de pessoas". Coincidência: um táxi de Arcos de Valdevez aguardava a conclusão da visita do templo pelo seu cliente.
Junto ao Santuário é possível usufruir de um parque de merendas arborizado, onde pontificam velhos carvalhos e outras árvores de grande porte. O recinto do Santuário está repleto de oliveiras provectas e o templo revela asseio e cuidado. Uma das suas colunas denuncia inscrições que o tempo (ou a acção humana) deliu. A construção revela um carácter popular.


segunda-feira, agosto 28, 2006
















Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá.

[António Ramos Rosa, O Aprendiz Secreto. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2001]
[foto: jcml, pormenor da Fonte de S. João, Largo de S. João, Ponte de Lima]

sexta-feira, agosto 25, 2006
















Ver num grão de areia o mundo
numa flor um céu profundo
ter na mão a infinidade,
num minuto a eternidade...



[William Blake (1757-1827)]
[fotografia: jcml]


"O Anunciador das Feiras Novas" é uma publicação periódica fundada por Augusto de Castro e Sousa, em 1947, e reeditada por Alberto do Vale Loureiro, a partir de 1984. A capa reproduzida corresponde ao primeiro número da segunda série. Augusto de Castro e Sousa editou dois números. A actual série vai no 22º número publicado.
O blog toma o nome da revista e pretende cumprir na blogosfera a sua linha editorial: divulgação da cultura e da arte limiana. Como é natural, não terá uma edição anual, à semelhança da publicação em papel, mas actualizar-se-á sempre que a vida de Ponte de Lima e do autor dos post se cruzar. Para saber mais sobre a revista "O Anunciador das Feiras Novas" acede ao seguinte endereço:
http://anunciadordasfeirasnovas.planetaclix.pt/pontelima.html

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